<$BlogRSDUrl$>

A história dos sonhos 

"Passei ao lado do mundo e tomei a história pela vida"
Jules Michelet

A vida é feita de histórias. Escrever é tentar ordenar os capítulos. Desde pequena que teimo em misturar História e histórias, razão pela qual, conto estórias.
É muito ténue a linha que separa a realidade da ficção. Por vezes, o que nos sucede em sonhos, transcende uma realidade pueril. As personagens são as mesmas. Há poucas coisas que não mudam nesta vida... as personagens padrão e a ideia de amor.
Todos somos personagens tipo na vida de alguém... se calhar é por isso que este mundo é uma aldeia e as histórias se cruzam, paralelas e equidistantes.
Para muitos serei lírica, ingénua, uma romântica incorrigível, sonhadora, uma menina que não quis crescer, infantil... Maria Lua... talvez seja, apenas, alguém que não tem medo do sonhar. Sonhar o sonho pela vida e a vida pelo sonho... porque ainda há sorrisos que merecem ser guardados.
'Os sorrisos entram e são grandes'_ disse-me o menino. E percebeu que, afinal, podia voltar a sonhar. Contei-lhe uma história, daquelas que hei-de contar à Cuca, para que nunca tenha medo de crescer.
As histórias fazem sentido, desde que sejam vividas, nem que seja em sonhos...

|

Mais uma noite para comemorar II 

Mais uma noite para comemorar... a Mafalda Veiga brindou a assistência com um concerto brutal... memorável!
Sentimos o mesmo, de forma diferente... estivemos ali de corpo e alma, com verdade, vivemos tudo de um modo muito intenso... a música tem o poder de unir... pessoas e afectos. E, mesmo que por breves instantes, transpõe-se barreiras impostas e sobrepostas. Reviver, tornar presente o que nos marcou, recuperar o passado, renovar o presente, reequacionar a vida no embalo das canções... Tenho a alma arrepiada, a transbordar...

As palavras desta senhora tocam-me particularmente, cada música conta um bocadinho da minha história pessoal, é um pedacinho do meu trajecto, uma parte de mim e daqueles que amo (ou amei um dia).
Crónicas de amor, como banda sonora da minha própria vida, sob forma de acordes e sílabas. A voz do coração.
Transcendo-me... deixo de ser eu... é tudo e nada, são as minhas experiências, os meus sonhos, os pilares da minha existência, os medos e os cansaços, é a vida que me corre nas veias.
É sempre inevitável abrir o livro de memórias e ver passar o filme todo à minha frente... cada letra, cada sonoridade, estão sempre indelevelmente associadas a alguém que me é caro... tudo tem sentido, significado e significante.

Esteve muita gente comigo no concerto desta noite.
Gente que (re)descobriu Mafalda Veiga por minha causa e que hoje cantou comigo.
Não é preciso ver para sentir, não é necessário estar para ser presente... por isso, fechei os olhos muitas vezes para vos ver. Afinal, também há amor na ausência... no presente... e o passado volta, confronta-nos porque, a música tem o poder de nos transportar às memórias...

Há noites para comemorar... esta é, com toda a certeza, mais uma... pela partilha, pelos sorrisos, pelos afectos, pela luz da lua que não deixou nunca de brilhar, pelos olhos húmidos, pelas emoções... por estarmos vivos.
Amei, amo e amarei!

Eu sinto os teus passos,
na escuridão
Pressinto o teu corpo
no ar, aqui
E vou como se o mundo todo fosse
sugado para dentro de ti
E não houvesse nada a fazer
senão deixar-me ir

Pressinto os teus gestos,
quando não estás
Procuro os teus sonhos,
perdidos
E hoje mais que qualquer outra noite
Há qualquer coisa que me fere
Que me faz querer tanto ter-te aqui

Não importa se às vezes tudo é breve como um sopro
Não importa se for uma gota só
De loucura que faça oscilar o teu mundo
E desfaça a fronteira entre a lua e o sol

Se o gesto cair assim,
despedaçado
se eu não souber
recolher, a dor
se te esperar a céu aberto
onde se esconde
O que tu és que eu também sou

É que hoje mais que qualquer outra noite
Há qualquer coisa que me fere
Que me faz querer tanto ter-te aqui

Não importa se às vezes tudo é breve como um sopro
Não importa se for uma gota só
De loucura que faça oscilar o teu mundo
E desfaça a fronteira entre a lua e o sol

Não importa se às vezes tudo é breve como um sopro
Não importa se for uma gota só
De loucura que faça oscilar o teu mundo
E desfaça a fronteira entre a lua e o sol

Não importa se às vezes tudo é breve como um sopro
Não importa se for uma gota só
De loucura que faça oscilar o teu mundo
E desfaça a fronteira entre a lua e o sol

(Mafalda Veiga, Uma Gota)

|

Mais uma noite para comemorar I 

Fim do dia (no lado quente da saudade)

Esperei-te no fim de um dia cansado
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir

Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado

O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar

O escuro lá fora incendeia as estrelas
AS janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua

Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste

Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu abraço fechado

E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade

Esperei-te no fim de um dia cansado
À mesa do café de sempre
O fumo, o calor e o mesmo quadro
Na parede já azul poente
Alguém me sorri do balcão corrido
Alguém que me faz sentir
Que há lugares que são pequenos abrigos
Para onde podemos sempre fugir

Da tarde tão fria há gente que chega
E toma um café apressado
E há os que entram com o olhar perdido
À procura do futuro no avesso do passado

O tempo endurece qualquer armadura
E às vezes custa arrancar
Muralhas erguidas à volta do peito
Que não deixam partir nem deixam chegar

O escuro lá fora incendeia as estrelas
AS janelas, os olhares, as ruas
Cá dentro o calor conforta os sentidos
Num pequeno reflexo da lua

Enquanto espero percorro os sinais
Do que fomos que ainda resiste
As marcas deixadas na alma e na pele
Do que foi feliz e do que foi triste

Sabe bem voltar-te a ver
Sabe bem quando estás ao meu lado
Quando o tempo me esvazia
Sabe bem o teu abraço fechado

E tudo o que me dás quando és
Guarida junto à tempestade
Os rumos para caminhar
No lado quente da saudade

As canções da Mafalda acabam por ser sempre a banda sonora da minha própria vida. Esta canção toca-me de forma especial porque fala das marcas que deixamos nos outros, "na alma e na pele", e das saudades doces que nos ficam, de pessoas e momentos muito especiais.
"Fim Do Dia (No Lado Quente da Saudade)" lembra-me um poema muito especial, escrito por uma amiga minha, que já faleceu e, que mora no lado quente das minhas saudades: "Há sempre uma imagem.../Sempre esta imagem de nós/imperfeitos, inacabadamente longe dos sonhos /e há sempre sonhos/sonhos doces, tão mágicos, tão desejáveis/mas tão longe do que somos e temos /Há sempre outros/sempre esses outros que nos avaliam/que nos fazem corar, sorrir, amar, chorar. /e há sempre nós.../nós bonitos, nós feios,/nós sozinhos, nós amados... /Quem me dera que houvesse/sempre uma imagem de nós nos/sonhos dos outros!" (Rita Wemens, "Enchamos tudo de Futuros").
Eu sempre tive o culto do café, desde muito novinha que passo tardes inteiras na Sul América, o café que fica na esquina da rua do Liceu onde andei. O café de sempre onde aprendi que a amizade é, mesmo!, a mais bela forma de amor, aquelas mesas (que são as melhores do mundo!) já me viram chorar e rir tantas vezes; a Sul América é mesmo "um pequeno abrigo", um porto seguro onde regresso sempre à procura dos meus afectos, à procura do que de melhor eu sou... porque foi também ali que aprendi a amar pessoas "sem ter defesas que me façam falhar", porque foi lá que aprendi que os meus amigos serão "cúmplices o resto da vida" e tenho a certeza que "mesmo que a vida mude os nossos sentidos e o mundo nos leve para longe de nós", a Sul deixou em cada um marcas indeléveis que nos ficarão para sempre tatuadas, na Alma e na Pele.
Esta canção é também o regresso ao meu amor maior, aquele que resiste a tudo, até mesmo ao tempo, porque é um abrigo da alma pelo qual hei-de esperar sempre, mesmo "no fim de um dia cansado" porque vale a pena esperar por aquele abraço fechado... Amam-se gestos, palavras, sonhos, muitos sonhos... e vai-se sonhando o próprio sonho e vale a pena, porque um dia a paz acaba sempre por chegar, numa comunhão perfeita de corpos e almas; "em toda a parte... onde quer que eu vá, levo no corpo o desejo de te abraçar, em toda a parte onde quer que o sonho me leve, hei-de lembrar-me de ti".
A Mafalda Veiga, hoje e sempre, como banda sonora da minha própria vida, desta história e da história deste sonho... "seremos cúmplices o resto da vida"!!!
Porque há lugares mágicos, onde o reencontro é sempre uma bênção, e onde muitas vezes entramos "com o olhar perdido/à procura do futuro no avesso do passado", "sabe bem voltar-te a ver", sabe bem encontrar-te no caminho, "quando estás ao meu lado/quando o tempo me esvazia/sabe bem o teu abraço fechado/E tudo o que me dás quando és/guarida junto à tempestade/os rumos para caminhar/no lado quente da saudade".
Que os medos nunca desfaçam os sonhos e que o lado quente da saudade diminua as saudades de um tempo em que ainda não havia saudade.
E que "as marcas deixadas na alma e na pele" nos dêem forças para seguir em frente, com o coração alado e porque o fim do dia é só um recomeço, é preciso aprender que "se chorares por teres perdido o sol, as lágrimas não te permitirão ver as estrelas".

(7.Maio.2003)

|

A (minha) resposta 

(Não sei limpar o disco-rígido dos afectos.)

Quando nos conhecemos, eu estava a acabar de arrumar a casa... agora, pela primeira vez, assistes ao desenrolar de toda a história... a casa nova, a mudança, ir tentando encaixotar tudo, caixas que ficam mal fechadas e depois tornam a abrir... Eu gostava de ser daquelas pessoas que mudam, de um dia para o outro, sem que nada as faça voltar atrás, sequer a porta mal trancada. Digamos que sofro do síndroma da corrente de ar... quando menos espero vem um vendaval que, escancara a porta (ou as portas todas) e eu fico outra vez desprotegida... depois constipo-me.
Não sou obcecada pela arrumação... tenho é uma dificuldade enorme em deixar as coisas desarrumadas, o problema é saber arrumá-las... Sempre fui meio desajeitada, uma perfeccionista imperfeita, por isso saí do ballett.
Tenho uma (outra) dificuldade extrema em romper... acabo, corto, mas, não sei desatar. Há laços que, de tão inexplicavelmente fortes, se tornam quase indestrutíveis. Sim, é por causa deste meu feitio terrível que, as portas vão ficando encostadas.
Se calhar eles tinham razão, o que me falta é amor-próprio. Habituei-me a uma aparência de amor e deixei de ambicionar a verdadeira essência dos afectos. Sou uma passional que teve sempre que racionalizar, só nunca consegui ser racional ou, pelo menos, fui incapaz de ser passional a tempo inteiro.
Tenho uma casa vazia de móveis e cheia de fantasmas que deambulam ao meu redor. Os caixotes estão à porta e não sei o que fazer com eles, nem com a casa... se me vou embora, tenho que optar, ou deixo ficar tudo ou trago o melhor (equacionando o melhor, serei capaz de ir embora?)... não sou capaz de deixar as minhas recordações todas para trás, tenho medo de perder a identidade mas, por outro lado, se quero começar de novo não posso carregar uma mobília antiga e demasiado pesada. "Estar quieto também é uma acção... quando não souberes o que fazer, não faças nada, fica quieta". Vou passeando, só para ir enganado o tempo, incapaz de fazer escolhas limite (com receio do custo de oportunidade?), acabo por ficar sentada, no hall de entrada, a olhar para uma herança sem saber o que fazer com ela.
Sou vencida pelo cansaço e adormeço, envolvida num sono sem sonhos... embalada pelas recordações que o senhor do oceano canta só para mim.

"É preciso viver o amor, esquecer mágoas e matar inseguranças e acreditar que vale a pena amar alguém, que vale a pena partilhar o nosso amor, mesmo que quem o recebe não saiba abrir as mãos para o agarrar."
Sabes miúda, és um pilar - mesmo quando te sentes pequenina, fraca, vulnerável e desprotegida... porque eles não te souberam amar mas, a tua paz acabará por chegar... nem que seja através dos acordes do Jorge Palma. "O meu amor ensinou-me a partir/ Nalguma noite triste/ Mas antes ensinou-me/ A não esquecer que o meu amor existe."
O mundo gira e a vida acontece.
Um dia destes aparece-te alguém, que te ajuda a fazer a mudança, arruma a casa contigo e põe tudo em ordem, no seu devido lugar. vais ver que o amor, o teu também, existe!
Acredita, pequena!
"Posso já não construir castelos na areia nem esperar à janela pelo meu Príncipe Encantado, mas ainda outro dia uma fada me segredou que ele anda por aí, a jogar à bola num quintal qualquer, perdido entre sonhos, palavras e livros como eu, com o coração fechado para o mundo e aberto para a vida."

(É esta a minha resposta! A felicidade existe -o amor também-, às vezes, demora é um bocadinho a chegar.
Por ser o meu maior carrasco, cometo -sem querer- o erro de ser dura contigo... quando te devia mimar e cuidar. tu não és nenhuma rocha e também precisas do meu colo, tenho que ter mais atenção aos teus sinais... não te quero calar, só preciso de aprender a ouvir-te. prometo colocar-te na minha lista de prioridades.)

|

Olhares... 

Olhares...
Olhares que se cruzam... quatro histórias que se entrelaçam... sermos dois e sermos muitos... olhares que se encontram e se tocam... corpos que se abraçam e não se tocam... o que se sente... o que não se quer sentir... um ponto de partida... várias estórias à chegada...
Estarmos rodeados por uma multidão... e acabarmos aos pares... conhecer-lhe os sinais... desvendar a alma num segundo... ficarmos separados...
E... redescobrir... viver... reviver... e... reinventar... afectos... numa conversa silenciosa... de uns olhos que se (re)encontram e se (re)descobrem...
Saber-te tão perto e tão longe... sentir que para nós o princípio do fim está longe de chegar... longe de acontecer... ler-lhe nos olhos os pensamentos e saber que o fim está próximo... olhar nos olhos e encontrar um sorriso... cúmplice... seremos cúmplices o resto da vida...
Olhar... menina dos olhos...
O que se mostra... o que ficou por mostrar... o que se desvenda... e o que se tenta a todo o custo esconder... o que se pretende a todo o custo demonstrar...
A mentira da verdade... a verdade da mentira... as múltiplas verdades... o grito estridente das evidências... o eco dos vários sons... fogo cruzado... o passado que retorna no presente... uma sombra do que já se foi um dia... duelos perigosos... os instintos mais básicos do ser humano a virem à tona... a proximidade inquietante...
Jogos perigosos... a confusão... o despique... a angústia... a excitação... um emaranhado de gestos e sentimentos... os nós que se atam e desatam... os dois lados da barricada... separações... (re)aproximações...
Várias formas de gostar... escolhas e sobreposições... o que foi... o que poderia ter sido... o que é e não é... simplesmente ser... e gostar... de ti... de ti... e de ti... Gostar...
Um adeus de rompante... a fuga estratégica... presas e predadores... optar entre o ir e o voltar... ficar... tudo no seu devido lugar...
Voltar a arrumar a casa... dizer que acabou... expulsar os fantasmas... sorrir aos convivas... um último olhar... por hoje é tudo!... dizer-te adeus... e saber que é só até à próxima vez... tudo o que se diz... o olhar que desmente e confirma tudo... o que não se diz... fica tudo dito com os olhos...

|

Eterno errante 

Contaste-me a história de um amante, que não soube nunca ser amado. Dizias que os laços dessa 'coisa a que chamamos amor', são amarras perigosas e traiçoeiras que, nos impedem de viver. E eu ouvia-te, com atenção de discípulo, se houvesse amor... amor era, simplesmente, estar nos teus braços. Contigo nunca havia amanhã, vivia-se o presente e pronto! O problema começou no instante em que passou a existir passado... um passado que, apesar de não nos unir a nós, me unia a ti. Mas, não valia a pena cobrar-te nada, nem promessas, nem sonhos... nunca foste meu -nem de ninguém- embora te entregasses, aos momentos de paixão, como se fosses. Para ti, contava apenas e só a química, a intensidade do minuto que passava. Ensinaste-me o significado prático da filosofia epicurista e, no rescaldo do êxtase, lias-me poemas do Ricardo Reis.
Nunca me enganaste, é verdade! Sabia que estavas comigo quando e porque te apetecia mas, no momento imediatamente subsequente, podias ir à procura do sal da vida para outras paragens. Clarificaste as regras do jogo, logo à partida, para que não restassem quaisquer dúvidas e eu aceitei-as. "Tu não sabes jogar... não sabes jogar esse jogo!" e, talvez não soubesse mesmo, que importa? apaixonei-me por ti, condição sinequanone, dançar conforme a tua música, era inevitável.
Dormias comigo e, depois, segredavas-me ao ouvido: "sabes pequena, gosto de estar contigo, se não fosse um eterno errante...". E, calavas a minha boca com a tua e a tua boca com a minha, para que não se proferissem palavras comprometedoras. Gostavas de estar comigo, por isso regressavas sempre, mesmo que não fosse para ficar. Não querias amar e, muito menos, ser amado, por isso fugias... ficando cativo da tua própria liberdade.
Falavas pouco, sobretudo, de ti. Refugiavaste nas palavras de outros, principalmente, poetas e adoravas metáforas. Uma vez, citei-te o Kundera ...ele 'não sabia que o amor pode nascer de uma única metáfora' e fiquei a contemplar-te em silêncio. Um silêncio que tu calaste de um trago. "Maria, o amor é uma única metáfora, percebe?". Não, não percebia mas, também não pude responder. Tornaste a calar as nossas bocas.
Durante meses (ou terão sido anos?!), alimentei esta 'relação'... julgava-me alimentada pelo brilho que o teu olhar imprimia aos meus olhos verdes e, não fui capaz de perceber que, enquanto isso me ias consumindo a alma, sedenta de amor. Um dia, num intervalo das tuas muitas ausências, percebi que necessitava de mais para além de uma relação estilo 'máximo entendimento, mínimo envolvimento'. Esperei que voltasses. Fizemos amor numa entrega total e alucinante de corpos, adrenalina ao rubro. Soltei-me do corpo que te dei, para resguardar a alma. Desta vez, ia ser diferente. Fui eu que esperei que esperei que adormecesses para vir embora, fui eu a bater a porta... pela última vez.
Observei-te em silêncio, na penumbra do quarto, agora tão vazio e tão cheio de pequenos nadas por (e para) arrumar. Procurei papel e caneta. Sentei-me no chão a escrever, aquelas que foram as minhas últimas palavras, para ti.


"Meu querido António,
Sempre soube que, mesmo sabendo muito pouco acerca da tua vida (o que não significa saber pouco de ti), eras um 'vagabundo'. Não querias nada, nem ninguém, que te prendesse fosse ao que fosse. Deambulas pela vida em busca de prazer, de consumo rápido, fácil e acessível. Teimas em fugir das contrariedades do amor, não dás e não aceitas receber. idas mal com rupturas e abandonos, como todos nós; por isso mesmo, controlas o envolvimento criando uma barreira invisível que te distancia da vida e das pessoas.
Sabes, meu pequenino, o amor liberta-nos... ao contrário do que apregoas aos sete ventos, não é o amor que nos impede de viver e, sim os nossos medos e os muros que erguemos à nossa volta. Esse filtro, a que chamas levianamente liberdade, retém-te muito sofrimento -é verdade- mas também te prende as coisas boas... e o copo fica vazio. Não vives, limitas-te a experienciar. Provas mas não chegas a saborear.
Tens medo de sofrer e por isso foges do que te pode fazer, realmente, feliz. "Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes"... resta só saber como canalizamos essa força. Não se morre de amor e sim da falta dele.
Apaixonei-me por ti e acreditei que se não te apaixonasses por mim poderias, pelo menos, encontrar amor nos meus braços e procurá-lo noutros abraços. Depois percebi que o teu amor se chama sexo. Falamos mesmo um idioma diferente. Não fazia sentido continuar aqui, à espera que resolvesses partir de vez ou ficar. António, como tu, eu não acredito no 'para sempre', a diferença está em que eu creio que 'para sempre é só enquanto dura' e tu queres crer que 'para sempre é só o instante em que tu quiseres permanecer...'
Não estou a cobrar-te nada. O amor não se cobra, resulta de uma entrega espontânea e gratuita. Dei-te o meu amor, agora chega!, mas quero que saibas por mim, o que me levou a ir embora hoje e não antes ou depois, noutro dia qualquer.
Quem ama, merece ser amado, com verdade. tu não me amas, nem a mim, nem a ninguém. Não te amas a ti próprio e, por conseguinte, não te permites ser feliz. Sabes que não se perde o que não se possui, assim, não queres ter nada para não correres o risco de perder. Ao contrário de ti, eu amo de forma arrebatada e sem medos, aprendi que tudo o que não é dado se perde e eu também não gosto de perder; pelo que, luto até ao fim, como uma guerreira, pelo meu amor. Só que, há uma altura em que deixa de ser amar o outro, para passar a ser falta de amor-próprio. E, torna-se imperativo mudar o rumo dos acontecimentos.
Não queres estar comigo, para ficar. Muito bem, eu saio fora. Mas, também não vais estando comigo, a teu bel-prazer. Valho mais que isso. Vou-me embora, levo a recordação de um homem que me relembrou que a vida é fugaz e que, como tal, é preciso viver cada segundo como se fosse o último. Aprendi a lição. Carpe Diem, pois claro!
"Nesta curva tão terna e lancinante, que vai ser, que já é o teu desaparecimento, digo-te adeus, e como um adolescente, tropeço de ternura por ti". Levanto os olhos da folha para te ver. gostei muito de ti, sabias?! Mas acabou. Tenho pena que tenha sido assim. Espero que, um dia destes, sejas apanhado numa outra curva e descubras o amor.
Boa sorte, meu querido!
Gostei de viajar consigo. Agora que o meu caminho se separa do seu, desejo que encontre uma co-piloto que o saiba conduzir, sem outro destino que não seja a viagem, sem outro prazer que não seja a partilha. Até lá... que vá sendo feliz, meu eterno errante.
Um beijo,
Maria."


Fecham-se as luzes, a porta e este capítulo da minha vida. Saio, sem ter que olhar para trás. A casa está arrumada, tudo no seu devido lugar. Bato a porta devagar.
|

Competência para amar 

Vieste comigo
nesse jeito pós-moderno
de não querer saber nada
de não fazer perguntas
essa pose cansada
tão despida de emoção
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa
repetição

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta

depois quase ias embora
desse modo
evanescente
não soubesse eu ver-te
tão transparente
e teria sido apenas
o encontro acidental
uma simples vertigem
dum desporto radical

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta

Clã

... talvez um dia se fale de amor... com competência para amar...
|

Excepções 

"Por mais que tentemos, a m**** não brilha..."
|

The Day After Tomorrow 

The Day After Tomorrow... Soberbo!
Soberbo o argumento... a mensagem... as lágrimas... o Dennis Quaid... a companhia, a alma lavada...
Enfim, fiquei absolutamente rendida ao filme. E se eu gosto de filmes...

|

Escolhas 

As nossas escolhas encarregam-se de conduzir a existência de cada um de nós. Estou cansada... farta de escolher.

Descobri que "apenas há um dever, o de sermos felizes" (Denis Diderot)... o retiro espiritual, forçado!, acabou por ter alguma utilidade.
Agora, ando à procura do caminho... é a parte mais difícil e compete-me só a mim... desta vez, sei que tenho que fazer isto sozinha.

Estou esgotada. Muito stress, poucas horas de sono, milhares de coisas para fazer, a cabeça sempre a mil, o corpo ressentido, as dores de cabeça, a constipação, a alergia, as dúvidas, o receio, o medo, o pânico, o pavor... a ausência de certezas, o ficar de rastos. Um (quase) isolamento tão necessário quão desgastante. Provas. Prestar provas perante mim... provas perante os meus afectos.
Avaliados os meus afectos, ser avaliada pelos afectos.

Mas, apesar das contrariedades, nunca desistir... nunca desistir de encontrar o -meu- caminho.

Espera-me mais uma semana de retiro... não o desejado mas, o possível e prioritário. Há que definir prioridades, adequadas ou desajustadas mas, as do momento.
Qualquer dia volto e volto a ter tempo e, consequentemente, disponibilidade para estar a sós comigo. Reordenar ideias. Redefinir prioridades. Mudar de sítio. Espera-se uma nova revolução... lá para meados das próximas semanas.

Eu volto!
Entretanto, já sabem que gosto muito de vocês... as minhas âncoras!
Beijinhos grandes.

|

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com